Aqui vos fala um especialista em publicidade e marketing, analista de mídias pagas da velha guarda, CEO e fundador da agência Dinossauro do Tráfego, especialista em arquitetura e rastreamento de dados, Consultor e Mentor, editor deste blog e o véio chato que fala “na minha época”. (a ordem dos fatores não altera o produto! rs)
Neste artigo vamos adentrar nas obscuridades do nosso setor e explicar tintin por tintin, o que difere um profissional que foi talhado como analista de mídias pagas de um “gestor de tráfego”, que parece ter, junto com seus amados idolatrados salve salve gurus, algum pacto nefasto em suas seitas digitais com a absoluta ausência de ética e inteligência para negócios.
Para dissecarmos essa anatomia sem anestesia e resgatarmos o rigor técnico que nos é indispensável, vamos tatear as entranhas putrefatas do que se tornou uma das atividades profissionais mais importantes que envolvem o marketing e a publicidade. Já faz anos que venho observando comportamentos vergonhosos de todos os lados. Isso precisa mudar.
Pega uma aguinha (toma um antiácido), um cafezin bão e senta que lá vem história!
“A excelência é um bom começo. Tudo mais acontece a partir dela.”
— Roberto Dino.
O choque entre a ciência publicitária e o circo digital
O mercado de marketing digital transformou-se em um fascinante e caótico circo de horrores e ilusionismo barato.
Sob a batuta gananciosa de gurus hipnóticos, dancinhas de feed e promessas delirantes de enriquecimento rápido no conforto do pijama, o secular e rigoroso departamento de mídia das agências de publicidade foi sequestrado, tomado de assalto por uma horda abissal de seitas digitais. No seu lugar, o mercado popularizou um exército de papagaios adestrados e lobotomizados batizados de “gestores de tráfego”.
De um lado dessa selva, temos o Analista de Mídias Pagas: um profissional com raízes no conhecimento técnico abrangente de todos os setores de uma agência e do mercado, inteligência financeira, análise dados e ciência do comportamento humano.
Do outro lado, habita o intrépido “gestô di tráfigu” (comumente pronunciado dessa forma): subespécie efêmera forjada no ápice dos delírios pré e pós pandêmicos, munido de hacks tão sólidos quanto gelatina vencida e de absoluta acefalia congênita sobre a sustentabilidade do caixa empresarial de longo prazo.
Se você é empresário, executivo ou profissional de marketing com um pingo de juízo, precisa acordar imediatamente para o rombo operacional que está destruindo micro, pequenas e médias empresas e desvalorizando não somente quem se empenha na aplicação sistemática e ética dos fundamentos da aquisição, mas gerando danos ao nosso setor e à saúde econômica principalmente das 97% de PMEs do país, incluindo nessa “festa estranha com gente esquisita”, as próprias agenciEcas que financiam esse surto de histeria coletiva.
O circo dos apertadores de botões está desmoronando diante do rápido avanço da automação de tudo (até do que não deveria) e da obrigatoriedade da construção de arquitetura e rastreamento de dados primários coerente.
Continuar fingindo que qualquer aventureiro saído de uma comunidade digital pode gerenciar a inteligência financeira da sua empresa não é só amadorismo — é suicídio corporativo em praça pública.
Contudo, não acredite em mim. Veja com seus próprios olhos no mapa de empresas brasileiras, o incrível número das que abrem e a proporção das que fecham anualmente tão ou mais rápido são abertas, trazendo um novo cenário alarmante à economia nacional. Isso se dá, contundentemente, pela ignorância geral sobre finanças e administração básica.
A arqueologia da publicidade e origem do tráfego
Para compreender o desacreditado cenário técnico atual, precisamos primeiro escavar as entranhas da história. A compra de espaços publicitários jamais foi um jogo de adivinhação ou uma roleta russa de palpites.
Na definição de Armando Sant’Anna, em Propaganda – Teoria, Técnica e Prática (9ª ed., pg. 68):
- a publicidade é um meio de tornar conhecido um produto, um serviço ou uma marca;
- seu objetivo principal é despertar, nos consumidores, o desejo pela coisa anunciada, ou destacar aspectos que diferenciam o produto de seu concorrente ou o aumento de seu valor junto ao target;
- ela faz isso abertamente, sem encobrir o nome e as intenções do anunciante;
- os anúncios são matéria paga.
Mark Tungate, em A História da Propaganda Mundial (pg. 26), diz: “…é seguro afirmar que a propaganda está por aí desde que existem bens para vender e um meio para exaltá-los — do pregoeiro nas ruas ao folheto pregado numa árvore”.
Sobre o departamento de tráfego nas agências, Roberto Corrêa, em O Atendimento na Agência de Comunicação (2ª ed., rev. e amp., pg. 30), elucida:
“O Departamento de Tráfego de uma agência tem a função de coordenar e controlar o fluxo de serviços na Criação e na Produção. O Atendimento, ao solicitar um serviço, envia um pedido ou blue sheet à Criação por intermédio do Tráfego. Este faz o registro e, se necessário, “negocia” o prazo para a sua realização entre aqueles dois departamentos.”
Leia também A realidade do empreendedorismo brasileiro
O planejador e o comprador de mídia
Para Helen Katz, a cadeia de mídia divide-se em dois pilares fundamentais:
- O Planejador de Mídia (Media Planner): o estrategista encarregado de examinar pesquisas demográficas, determinar audiências com base em estatística e sociologia, e mapear onde, quando e com qual intensidade a verba corporativa deve ser alocada.
- O Comprador de Mídia (Media Buyer): o negociador técnico responsável por implementar a visão estratégica junto aos veículos de comunicação, garantindo máxima eficiência de grades, frequência e cobertura.
Com o aprimoramento da análise de dados pela evolução da computação e das planilhas eletrônicas no final dos anos 80, surgiu a figura do Analista de Mídias. Ele traduzia relatórios complexos em conhecimento aplicável para CMOs e departamentos de vendas.
A verdadeira função do "departamento de tráfego" nas agências
Uma das maiores ironias semânticas do mercado contemporâneo é o uso da palavra “tráfego”. No organograma das agências de publicidade tradicionais, o “departamento de tráfego” operava puramente em função administrativa e logística.
O profissional de tráfego — que conheci nas agências em Goiás denominado simplesmente por mídia — gerenciava o fluxo de trabalho (workflow) interno. Sua missão era garantir que o serviço (job) transitasse dentro do prazo entre Criação, Atendimento e Produção. Ele jamais comprou um centímetro de espaço num jornal, nunca negociou um segundo de TV e tampouco analisou métricas de audiência.
Do impresso ao CPC do Google Search
Nos primórdios da internet, o comprador de mídia (media buyer) utilizava, basicamente, as mesmas métricas da mídia impressa, comprando visualizações fixas (CPM – cost per mille) em plataformas como a Yahoo! e seus banners rotativos (que levavam horas para upload e consumiam banda caríssima cobrada por minuto via conexão por linha telefônica).
Com o avanço da tecnologia, a chegada da banda larga e a consolidação da rede de pesquisa do Google Search (lançada a partir de outubro de 2000), é que a mídia online transitou às respostas diretas por intenção de busca (CPC), exigindo maior sofisticação técnica.
Um exemplo clássico:
Mesmo após consolidada a era da informação na primeira década do século XXI, até por volta de 2010-12, era mais comum a compra de espaços de mídia em jornais e revistas impressos, periódicos, encartes, tabloides — só não se engane, eles ainda não foram 100% extintos.
Ao comprar uma mídia de 10 mil encartes — basicamente é um impresso, como folders ou folhetos, que serão embutidos dentro de um dos cadernos do jornal (esportes, política, cidades, revista/magazine etc.) e entregue nas regiões escolhidas. O anunciante escolhia onde seriam veiculados baseado na região, dados demográficos, perfil socioeconômico (incluindo renda per capta estimada da localidade).
Se o jornal possuía tiragem de 30 mil unidades de segunda a quarta e nas sextas, 50 mil às quintas (em razão do caderno de esportes), 60 mil aos sábados e 80 mil aos domingos; contando ainda que desse volume, o jornal tinha 15 mil assinantes mensais; seriam avaliados os indicadores demográficos e o perfil do público desejado para saber para quais regiões, principalmente a com maior grupo de assinantes mensais, seriam distribuídos seus encartes.
Isso te lembra alguma coisa? A forma como eram escolhidos os pontos de entrega do conteúdo encartado parece com algo usado hoje?
É claro que sim. Os indicadores atuais utilizados pelas plataformas de anúncios não foram inventados por elas, não há nada de novo. São apenas adaptações do que já existia no “mundo real”, trazidas ao ambiente virtual, digital.
Dissecando a evolução do analista de mídias
O Analista de Mídias Pagas enxerga a veiculação de um anúncio (offline ou online) invariavelmente como a última etapa desse processo hiper complexo. Para ele, uma campanha sem sustentação no Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE) não passa de cortina de fumaça.
Ele não grava videozinho de meta batida por métricas volúveis como taxa de cliques por impressão (CTR) ou custo por clique (CPC) isoladas. O analista apresenta com segurança aos executivos o que verdadeiramente mantém a sobrevivência e o crescimento da empresa.
No meu cotidiano (e da minha agência), essas duas métricas são as primordiais, as que põem o dinheiro na mesa:
- ROI (Retorno sobre o Investimento Global) e ROAS (descontando devoluções e inadimplência).
- CAC (Custo de Aquisição de Clientes) atrelado à Margem de Contribuição Líquida.
A margem de contribuição líquida é o valor final depois de deduzir todos os custos e despesas variáveis diretas que incidem sobre a venda, como custo com matéria-prima, comissões dos vendedores, impostos.
Dentre as métricas primárias que ajudam na tomada de decisões estratégicas de alto impacto:
- Valor do Tempo de Vida do Cliente (LTV – Lifetime Value) e Taxa de Cancelamento (churn rate) na retenção de clientes.
- Valor Vitalício ou do Ciclo de Vida do Cliente (CLV – Customer Lifetime Value).
- Retorno sobre o Investimento em Marketing (ROMI – Return on Marketing Investment).
Enquanto o LTV é relacionado à receita bruta gerada pelo o cliente na manutenção em sua base, o CLV é centrado no lucro líquido deduzidos os custos inerentes.
O ROMI, diferente do ROI, que se baseia em todas as despesas e receitas, está relacionado unicamente aos custos diretos do marketing.
Entrando nas métricas secundárias, porém que também possuem grande relevância para a saúde e crescimento do negócio, estão:
- Participação de mercado (Market Share).
- Modelagem de Atribuição (baseada em dados ou último clique).
A participação de mercado é a porcentagem de vendas da empresa em relação ao total do mercado de atuação.
Quem leva o crédito por uma conversão é o que define o canal de marketing (anúncios, mídias sociais, e-mail marketing, buscas orgânicas) da modelagem de atribuição. No último clique, o crédito é 100% do último canal. Já o modelo baseado em dados distribui o crédito entre todos os canais por onde o cliente percorreu em sua jornada de compra, usando inteligência artificial.
Ter empresa é bonitinho né? Um glamour só vomitar por aí “sou empresário” e não saber o básico do básico de como gerir sua empresa.
De nada adianta o analista de mídias desenvolver as melhores campanhas, saber tudo o que deve saber, o analista de dados entregar um relatório de dados minucioso ao CEO ou dono do negócio, e ele não fazer a menor ideia de como usá-los. Aí é pra cair o cú da bunda!
Depois dessas métricas essenciais, aí sim entram as outras métricas secundárias, complementares às primárias, como CPC, CTR, CPL, CPA; as terciárias, impressões, alcance, CPM; e quaternárias, inscritos, seguidores, likes, comentários (essas podem ajudar em medições adjacentes para a participação na mídia – share of voice – ou ainda, lembrança estimada da marca — share of mind).
É você e seus diretores ou executivos quem decidem o que será feito com as informações, não o analista. Então não mate o mensageiro se não gostar da mensagem que receber.
Nota do autor
O ponto X é que nem todas as métricas poderão nem deverão ser calculadas pelo analista ou pela agência, e sim pelo financeiro do próprio cliente. Explico!
Suponhamos que a empresa queira saber o ROMI. Além das ações de mídias pagas online, ela possui investimentos em influenciadores, eventos, feiras, patrocínios, publicidade em revistas especializadas de seu setor, OOH (outdoors, busdoors) e DOOH (painéis de LED pela cidade ou telas em condomínios empresariais).
Além disso, muitas empresas atualmente restringem o acesso aos dados financeiros, ficando apenas aquilo que você controla como parâmetros de mensuração. Logo, ou você revê seu formato contratual ou segue o baile.
Portanto, não importa se você acha seu guru simpático, legal, fala bem… ele é divertido, é entretenimento, e só. O conto de que “uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade”, pode de fato acontecer. Está aí diante de seus olhos, aconteceu.
Querer acreditar que isso foi uma “evolução” do departamento ou da função de tráfego, não vai mudar a realidade, que é: Parem de fazer merda com o mercado! Lidar com o dinheiro de empresas não é diversão!
O Pixel já era e a arquitetura de dados via servidor é a nova Rainha
A era de ouro do “gestor de tráfego” foi calcada na junção de outros abstracionismos, como no rastreamento de dados via navegador do usuário (Client-Side Tagging). Virou moda usar isso como fator de “geração de valor agregado”, muitas vezes oferecendo amostra grátis, período de teste, o que virou uma praga incontrolável e ocasionalmente reverbera até os dias atuais. Geralmente é um recurso usado por empreendedores desonestos que pulam de teste grátis em teste grátis, literalmente dando golpe nos incautos.
Bastava colar um fragmento de código (o Pixel) no cabeçalho de um site do jeito errado (ou porcamente via GTM Web) para que as plataformas de anúncios recebessem algumas poucas informações de conversão. Porém, somente as podiam ser contabilizadas automaticamente. Na maioria dos casos, não era configurado de acordo com a documentação da plataforma, e aí vieram mais gambiarras e hacks psicóticos dos abomináveis gurus das neves.
Esse modelo já era (ufa!). Com o avanço rigoroso das leis globais de proteção de dados, como a LGPD (Brasil), GDPR (Europa), CCPA (Califórnia, EUA), PIPEDA (Canadá) e a implementação de bloqueios direto pelos navegadores e sistemas operacionais — com destaque para o App Tracking Transparency (ATT) da Apple e o Intelligent Tracking Prevention (ITP) do Safari —, um morcego enxerga mais que o Pixel padrão.
Recentemente, com o lançamento da nova API de Conversão, do Meta Signals Gateway e o comunicado da obrigatoriedade de implementar a Google Data Manager API, a arquitetura de dados é a nova Rainha do Reino Empresarial. Quer você queira ou não entender como funciona e aprender no mínimo como planejar e construir, seja desenvolvendo a habilidade ou junto à equipe de programadores e analistas de dados, a real meu caro leitor e leitora, é que ou você se adapta ou fica pra trás.
E quando digo “fica pra trás”, é à distância intergaláctica.
Se a arquitetura de dados é nova Rainha, ela tem um general bem nervosinho, o rastreamento de dados via servidor. A rainha comanda o ecossistema. O general a sala de guerra.
Rastreamento via servidor: o general na sala de guerra
Para contornar o apagão de dados e restabelecer a inteligência dos algoritmos, houve a migração para o rastreamento via servidor (Server-Side Tagging). Tecnologias como a Meta CAPI (API de Conversões) e a Google Data Manager API eliminaram a dependência direta do navegador do cliente. Mas calma que “tem pegadinha”.
Em termos simples e claros:
- Do Navegador para o Servidor Próprio: Quando um cliente realiza uma compra ou preenche um formulário no site, esses dados são enviados primeiramente para o servidor seguro da própria empresa.
- Do Servidor Próprio para a Plataforma: Em seguida, os dados são filtrados conforme as diretrizes estabelecidas do que, quando, como e porque serão enviados cada tipo de dados, o servidor da empresa comunica-se diretamente com os servidores da Meta, do Google ou do LinkedIn por meio de chamadas encriptadas de API, sem passar pelos bloqueadores instalados no navegador do usuário.
Essa arquitetura garante a integridade e a qualidade dos dados (First-Party Data), permitindo que os algoritmos continuem aprendendo e otimizando campanhas mesmo no cenário caótico de restrição aos cookies de terceiros.
Além disso, novas funcionalidades e personalizações foram lançadas no Google Analytics (GA4), o que torna a interpretação desses dados e geração de relatórios mais objetiva junto a rotas de filtragem e depuração com ferramentas robustas como o BigQuery.
A nova infraestrutura exige espartanos artesãos de dados
Planejar, conduzir e mensurar resultados de campanhas de anúncios de uma empresa atualmente exige, além de tudo, que o analista de mídias pagas deve saber sobre o que vem antes e depois da veiculação das campanhas, a compreensão de conceitos avançados de arquitetura de dados em nuvem, capacidade de tráfego na hospedagem, gerenciamento de contêineres (GTM, Stape, Adobe Experience Platform Tags, Tealium iQ, Piwik PRO, Matomo, Ensighten), envio de dados proprietários encriptados, auditoria de conformidade com a LGPD e outras dezenas de requisitos técnicos vitais.
Enquanto os adoradores de gurus permanecem atônitos invocando seus gurulove a cada piscada de tela, esperando qual a mágica com pó de pirlimpimpim destilará no altar de sua seita delirante, diante de relatórios inúteis porque seus Pixels pararam de enviar sinais, o Analista de Mídias Pagas projeta a estrutura de dados que alimenta o sistema, corrige falhas e trabalha com astúcia junto com outros profissionais (não dá pra abraçar o mundo com as pernas e esperar que dê certo).
Ele desenvolve a sutileza de um artesão em sua arte ao mesmo tempo que se prepara com o foco e espírito de força coletiva de um guerreiro espartano. É inteligência de processos e visão de negócios aplicada na prática — algo que nenhum tutorial rápido de internet consegue ensinar ou substituir.
Apesar dos investimentos multibilionários em inteligência artificial, há pré-requisitos que exigem análise holística da estrutura organizacional das empresas. O planejamento estratégico e crivo técnico humano é indispensável para reduzir erros críticos e perda de tempo precioso na implementação.
Máquinas não sentem, não comem, não dormem, não têm problemas com ligação da escola dos filhos na segunda às dez horas da manhã… não vivem, não tem experiências, não se emocionam com as menores conquistas ou maior fracasso. Não têm luto por entes queridos.
O algoritmo é um senhor feudal sádico
A derradeira foiçada sobre a patética atuação dos nossos pequenos gafanhotos veio das próprias gigantes de tecnologia. Com as atualizações recentes da Performance Max (PMax) no Google Ads e o Advantage+ no Meta Ads, os modelos de aprendizado de máquina assumiram a microgestão de lances, a combinação dinâmica de formatos e a distribuição de públicos.
Os algoritmos analisam trilhões de sinais comportamentais por segundo, tornando a escolha manual de palavras-chave ou a micro segmentação de públicos por interesses ultrapassadas — dizem eles. Observando por este lado, os apertadores de botões perderam a sua única função técnica. Eles (os algoritmos) são clássicos senhores feudais sádicos, mandões, que não se importam se o seu dinheiro vai torrar e evaporar. Segundo as plataformas, ele é que manda no SEU dinheiro agora e ponto final.
Performance Max, Advantage+ e o c’est fini do apertador de botões
Estes tipos de campanhas tem uma função específica para objetivos específicos. Tanto as PMax (Google Ads) quanto Advantage+ (Meta Ads) e outras totalmente automatizadas independentemente da plataforma (Linkedin, Pinterest, TikTok…), continuam não sendo recomendadas para segmentos ultra nichados. Há critérios coerentes, inteligência de negócios e altíssimo volume de DADOS a serem aplicados por trás delas.
Campanhas PMax para empresas que não possuem loja física é como cavar um buraco, sacar seu dinheiro no banco, derramar dentro dele e tacar fogo. Suponho que você não está babando e não derreteu seu cérebro para chegar a tanto.
As Advantage+, igualmente, são ótimas para anúncios de catálogo (e-commerce) ou produtos e serviços de massa, necessários à e que atinjam todas as classes.
Em todos os casos, tanto de campanhas nichadas com requisitos técnicos mais exigentes quanto produtos e serviços de alto valor como, por exemplo, produtos para indústrias, serviços B2B de alto valor ou agronegócio, esqueça.
Imagine que você vende silos graneleiros ou colheitadeiras. Você acredita mesmo que usar uma “pseudo estratégia” baseada em campanha de público aberto em mídia social vai te ajudar a vender uma máquina de dois milhões de reais a um produtor rural? Ou uma consultoria estratégica para indústrias metalúrgicas?
Pois bem, é isso que os guruzões vão dizer para seus pupilos idólatras fazerem (e eles defenderão esse absurdo, alucinados, com unhas e dentes): “faz campanha de público aberto com 70 criativos até acertá, valida us criativu que vai dá bom”.
Você já viu alguma empresa ou indústria que movimenta centenas de milhões, bilhões de dólares anuais em nível global perder tempo com esse tipo de pseudo profissionais praticantes de pseudo técnicas publicitárias? Que vão deixar alguém oriundo de seitas digitais alucinógenas que não sabe sequer interpretar um plano de marketing, gerir verbas milionárias de propaganda? Acorda Alice, é só um pesadelo… acordaaa!!
Lamento ser o portador das más notícias, mas “campanha de público aberto com validação por criativo” não é estratégia, é caso gravíssimo de psiquiatria. Se o planejamento de marketing estiver errado (se é que foi feito), não tem branding, não tem posicionamento de mercado ou está perdendo market share, há inconsistências na comunicação da marca ou está comunicando ao público errado, a equipe comercial está desconectada do marketing e o funil de vendas está desorganizado, sem direção, não há processos claros definidos, perceba, a estrutura organizacional da empresa está caótica.
Não tem anúncio premiado em Cannes que resolva isso. Será um desastre monumental com aviso prévio de “fracasso”. O alerta é simples: antes de mergulhar neste mercado, saiba onde está se metendo.
Nota do autor
Apesar da histeria das plataformas em insistir que você deve deixar que apenas elas decidam o que fazer com o SEU dinheiro, não é bem assim que a banda toca. As opções de configuração e segmentação manual de campanhas, quando usadas de forma estratégica, inteligente, bem pensadas e planejadas, principalmente para segmentos específicos e ultra nichados, fazem mais diferença com resultados muito superiores do que permitir que sejam elas (as plataformas) ou os “gestô di tráfigu” a torrar sua verba. Seu CAC se tornará completamente inviável. Não recomendo. Porém a escolha é toda sua.
“A automação algorítmica libertou o profissional de mídia da repetição mecânica das interfaces, mas exigiu dele algo que nenhum guru consegue ensinar em três dias: capacidade de modelagem financeira, arquitetura de dados e compreensão profunda do comportamento humano.”
— João Augusto Limeira em A farsa da mídia paga e o império dos gurus
A fábrica de delírios digitais
A partir de 2014, o mercado brasileiro assistiu a uma invasão de “especialistas” autoproclamados. O boom dos infoprodutos e dos lançamentos digitais criou uma demanda desesperada por mão de obra barata para apertar os botões dos gerenciadores de anúncios.
Assim, a partir de lives festivas de certas figuras, nasceu o caricato personagem de terror trash “gestor de tráfego” (ao estilo Contos da Cripta): um indivíduo cuja bagagem intelectual se resume aos vídeos curtos, lives de entretenimento e cursos evasivos de seu “gurulove” de estimação, mais rasos que piscina infantil.
Aprendem supostos “hacks” temporários de plataforma, a apertar uns botões, mas tornam-se incapazes de diagnosticar com clareza as razões da queda de uma taxa de conversão causada por precificação errada (exige compreensão de margem de contribuição líquida, fornecedores e compra, margem tributária, DIFAL – diferença de alíquota etc., etc., etc.), fricção no checkout por questões técnicas lógicas, de design ou posicionamento de marca deficiente.
Falando com conhecimento de causa, se tentar mergulhar tecnicamente na própria plataforma que dizem “ser experts”, tem dezenas de funcionalidades importantes que eles nem sabem que existe. Configurações diretas na conta que podem potencializar os resultados do cliente e reduzir custos com altíssima eficiência.
Conforme denunciado por João Augusto Limeira em seu ensaio A farsa da mídia paga e o império dos gurus, instaurou-se uma cultura de ostentação débil. Cenários alugados, carros de luxo e promessas de faturamento milionário serviram de isca para atrair jovens desavisados vitimados pelo viés de Dunning-Kruger (a ignorância inconsciente coletiva).
É ilusionismo barato pega trouxa no mais baixo nível possível.
O escravo moderno do home office
Essa banalização gerou um novo modelo de escravidão travestida de oportunidade profissional, em formato de prestação de serviços.
As empresas amadoras e algumas com prepotência suficiente de se dizerem “referência”, passaram a publicar vagas arrombadas no mercado (especialmente no Linkedin, como esta), exigindo dedicação exclusiva sob o pretexto de “estabilidade PJ” por remunerações humilhantes.
Na base dessa pirâmide, os gestores novatos são massacrados pela precarização de honorários, chegando a ser oferecidos pagamentos “por conta” de até 150 reais mensais ou menos. No topo, empresas buscando nível “sênior” e oferecendo salários ridículos a analistas e estrategistas, profissionais escassos cuja complexidade técnica só é forjada após anos de prática, gestão de tempo, recursos e equipes reais, não em retiros motivacionais.
Não adianta entrar na moda de “subir a montanha”, é preciso assumir as responsabilidades profissionais com integridade, decência, honestidade e bom senso. O que é ainda mais absurdo é que profissionais com um mínimo de seriedade aceitem situações como a descrita abaixo:
Alta exigência técnica (nível P.h.D), pressão por resultados estratosféricos tirados de suas mentezinhas fecais, metas absurdas extraídas de Nárnia. Esta é a realidade do mercado atual.
Imagine você, “nobre empresário”, trabalhar um mês inteiro como PJ — ou seja, empresa contratando empresa —, absorver para si os tributos e encargos sociais de responsabilidade do seu contratante (que age como empregador), horário de almoço regido pelo contratante, ter obrigações e algumas vagas até “benefícios” de CLT (caracterizando sem pudor pejotização) e, tendo a sua própria empresa — só relembrando, pessoa jurídica é empresa tá, caso os escravistas finjam terem se esquecido —, outra pessoa completamente alheia é quem vai mandar e botar as regras na sua empresa.
Entendeu o despautério, o delírio, a insanidade, a síndrome de sinhozinho feudal, o surto narcisista?
Será que essa mesma emprezona, aceitaria atender um clientão mediante os seus próprios critérios?
Vamos um pouco além. Sabe qual é o piso salarial para auxiliar de limpeza?
A média nacional do piso salarial para Auxiliar de Limpeza em 2026 varia entre R$ 1.621,00 (piso normativo nacional/salário mínimo) e R$ 1.911,60 para uma jornada padrão de 44 horas semanais. Piso, quer dizer o mínimo.
Resumindo, para os “jênios” empresariais, incluindo os benefícios obrigatórios, é melhor trabalhar como auxiliar de limpeza do que ‘gestor de tráfego’. Você ganha mais, mantém sua sanidade, lidando com o mesmo tipo de gente escrota, só que um pouco mais distante durante períodos muito mais curtos de tempo.
Preste atenção no descalabro: “Esta vaga é para profissionais que realmente buscam estabilidade…”. Se você está lendo isso, é um profissional da área e deseja profundamente ser escravizado, literalmente pagar para trabalhar e ser grato por ser feito de imbecil, este tipo de proposta é a ‘mió du mundo’. Roçar lote compensa mais (200 a 300 reais a diária).
Pense. É grátis. E não dói.
Leia também: Novas métricas do Google Ads: conversões futuras qualificadas, anúncios na busca com IA, direitos do criador
A pérola do Dino!
Tem um baita choque de realidade rolando pela excessiva automação, necessidade irremediável de dados primários e avanço mega acelerado das IAs nas plataformas.
Espero que, ao ler este manifesto, isso delete de sua mente a ilusão de que apertar botões coloridos dos gerenciadores de anúncios seja uma profissão. Qualifique-se, prepare-se. Mergulhe de cabeça. Este setor tem ótimas profissões.
A divergência entre analista de mídias pagas e gestor de tráfego não é maquiagem curricular. É o divisor de águas que separa a idolatria guruzística dos fundamentos que alicerçam o nosso setor e da construção de propaganda eficaz baseada em inteligência de negócios.
O cômico espécime Galinha-Tonta-Digitalis segue correndo atrás das penas do próprio rabo, cacarejando métricas que não servem nem pra adubo, totalmente incapaz de apresentar visão estratégica integrada em equipe, conhecimento técnico relevante ou entender que seu trabalho deve refletir diretamente na DRE.
Contenta-se em receber trocadinhos de “mesada de vovó” que mal sustentarão seu CNPJ, quem dirá sua vida. Alimentam uma rotatividade sufocante, insuportável ao trocar psicologia de consumo por truquezinhos “copia e cola” infantis, irresponsáveis.
O analista atua como o Velociraptor da performance no marketing, unindo matemática empresarial refinada por princípio, domina a arquitetura de dados, trabalha em equipe sinergicamente e adestra com mira certeira os motores de inteligência artificial com sapiência, respeito pelo investimento das empresas e inteligência de negócios centrada em lucro real.
Essa conta nefasta, perversa, é dividida entre os gurus que venderam as ilusões, os amadores sanguessugas que aceitaram e se recusaram a aprender fundamentos e os empresários com mentalidade escravista mais enterrada que toca de jabuti. Insistiram em economizar merrequinha pra queimar seu dinheiro nos leilões de anúncios. O abismo salarial e técnico é vergonhoso, decadente e está totalmente escancarado.
Temos aqui, três vieses como reflexão profunda:
1º – Depois de ver o dinheiro do seu negócio virar fumaça nas mãos de quem aprendeu publicidade em videozinhos de contos de fadas, a pergunta que fica é simples: você continuará pagando míseras mensalidades ridículas até ser extinto ou vai pagar e rir pra sorte abrir, investindo em excelência técnica, criar propaganda de verdade e construir uma arquitetura de dados sustentável de longo prazo para o seu negócio?
2º – Como analista de mídias pagas, não aceite ser comparado, muito menos reduzido a pseudo profissão de guru arrombado, ser depreciado profissionalmente em nível tão asqueroso, desrespeitoso e desvalorizado a meros 1/3 do que vale, minimamente, todo o SEU investimento em qualificação. Não se renda ao que está errado, ainda que todos ao seu redor digam “não adianta lutar contra”. Lute!
3º – Aos gestores de tráfego, melhorem! — assim não precisarei mais esculachar vocês. Parem com a idolatria acefalóide doentia e respeitem o dinheiro dos empreendedores se quiserem ser respeitados e valorizados. Nenhuma empresa é “caixa rápido” ou a sua vovó pra te dar mesadinha. Tenha consciência da seriedade deste trabalho e o quanto ele impacta na vida de dezenas, centenas, milhares de pessoas direta e indiretamente. Se você não tiver o discernimento que seus atos podem fazer um pai ou mãe de família perder o emprego e passar necessidades por causa da sua irresponsabilidade, esse circo de horrores não vai acabar.
A todos os profissionais que exercem profissões relacionadas ao marketing, publicidade, comunicação, ajam com ética.
O mínimo que podemos fazer, é SER o exemplo.
Este, é meu manifesto.
Fim da transmissão.
Abraço do Dino! 🦖
Referências Bibliográficas
DAMBROS, C. A banalização do marketing: como a era dos “gurus” descredibilizou a área. Fullstackmkt, 2024.
KATZ, Helen. The Media Handbook: A Complete Guide to Advertising Media Selection, Planning, Research, and Buying. 2003. Citado em Nossa (2020).
LIMEIRA, João Augusto. A farsa da mídia paga e o império dos gurus. Medium, 2024.
MIRAGO. Podcast Next Level. Episódio #24: Gestor de Tráfego vs Mídia com Daniel Galvão. 2023.
NOSSA, Bruno Toscano. O Comprador de Mídia. TCC. Universidade de São Paulo (USP), Banco de Dados de Trabalhos Acadêmicos, 2020.
SANT’ANNA, Armando. Propaganda: Teoria, Técnica e Prática. 9ª ed. rev. — São Paulo: Cengage Learning, 2022.
CORRÊA, Roberto. O atendimento na agência de comunicação. 2ª ed. rev. e amp. — São Paulo: Global, 2013.
TUNGATE, Mark. A história da propaganda mundial. São Paulo — Cultrix, 2009.
VOGEL, Melissa. A evolução do profissional de mídia na publicidade. Monitor Mercantil, 2023.
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