Proibição eleitoreira é o caminho? Ou seria melhor uma regulamentação com limites inteligentes na publicidade?
O que está sendo alardeado pela mídia é “o fim das bets no Brasil”, “o fim do futebol brasileiro”. Isso é apenas cortina de fumaça dos principais beneficiados.
Os impactos sociais das apostas e da publicidade foram sentidos em diversos setores da economia primária do país, na saúde e segurança pública. Será que isso não deveria ter sido avaliado antes, ao invés de liberar indiscriminadamente?
Infelizmente, inteligência e preparo nunca foram o forte dos governos no Brasil, de nenhum deles. Vê-se, nitidamente, por termos assumido uma polarização burra e estéril que apenas divide a população (dividir para conquistar), mas não resolve nenhum problema de fato.
Um uso mínimo de inteligência seria suficiente para entender que, a partir da proibição sumária, o problema vai apenas piorar, levando os usuários a medidas alternativas para continuarem apostando em sites estrangeiros.
O mais estranho é que medidas tão radicais nunca foram tomadas por este mesmo governo no combate ao crime, em melhorias reais na educação — que resolveria mais da metade dos problemas do país.
Um povo incentivado e habituado a burlar as leis vai mesmo parar de apostar só porque um despreparado resolveu cercear um direito que ele mesmo concedeu?
A megasena e os jogos de azar promovidos pelos governos federal e estaduais também serão proibidos? Porque este problema, a ludopatia, também já existia antes.
Contudo, só agora, uma semana antes das eleições presidenciais, o “jênio” resolveu acabar com a festa das bets. Este ato é de um escárnio abissal. É chamar descaradamente a população do país de burra, imbecil.
Nada vai mudar. Na verdade, vai piorar e muito, acredite.
Recomendo antes do café, um antiácido. O assunto é indigesto. ☕
A publicidade irresponsável das bets
Como não houve uma regulamentação inteligente, responsável e bem estruturada, a primeira lei promulgada pelo ex-presidente Michel Temer (Lei nº 13.756, de 12 de dezembro de 2018) abriu as portas do mercado brasileiro para as casas de apostas.
Na última sexta, 25 de setembro de 2026, foi anunciada a MP Nº 1.394, decretando o fim das bets no país e, por consequência, da veiculação de sua publicidade, de apostas ou qualquer atividade relacionada.
O problema real foram as bets, a falta de raciocínio de quem legislou ou da publicidade predatória e irresponsável das próprias?
Quem mais se beneficiou da chegada das bets?
Obviamente, e não precisa ser nenhum Einstein para saber, primeiro o próprio governo, que estabeleceu valores arbitrários de 30 milhões em taxas de regulamentação das casas de apostas.
Toda uma gama de atividades foi beneficiada, incluindo principalmente as emissoras de TV, rádio, canais de comunicação presentes no Youtube, Instagram, Facebook, Kwai (onde o Tigrinho impera), TikTok e, respectivamente, os influenciadores digitais. Estes últimos nadaram de braçada, abocanhando patrocínios e vultuosas comissões pela introdução de novos usuários.
No topo dessa cadeia alimentar estão os clubes de futebol, onde a festa “sem fim” das bets rolou 24/7 com as apostas esportivas.
Alguns desses clubes receberam aportes que variam das dezenas para centenas de milhões em patrocínios master, aportes para compra e pagamento de jogadores, movimentando (e inflacionando) o mercado como nunca antes visto.
Entretanto, como profissional da publicidade, eu particularmente não vi com bons olhos o caminho de excesso de exposição tomado pela mídia brasileira, seja pelas emissoras de rádio e tv aberta e paga, por influenciadores, jornalistas ou canais dedicados ao esporte no Youtube.
Ninguém, mas ninguém mesmo, teve nenhum cuidado em relação ao potencial e alarmante incentivo ao vício.
Ranking dos 11 maiores patrocínios master no futebol
Na contramão do bom senso, os clubes de futebol no Brasil foram uma das portas de entrada mais importantes para as casas de apostas ‘regulamentadas’, massificando sua presença através do grande apelo emocional que envolve os torcedores.
E é exatamente aí que está o maior problema, o apelo emocional. Todo vício tem relação direta com algum tipo de disfunção ou descontrole emocional do adicto.
Ter uma grande marca ou “o seu clube do coração”, algo que já envolve na nossa sociedade motivo causal para comportamentos inadequados, até de violência, como fonte direta de exposição indiscriminada e ininterrupta do incentivo ao jogo de azar, foi a justificativa perfeita para a medida puramente eleitoreira do atual presidente e candidato ao pleito de reeleição.
As bets investiram pesado nos clubes e agora poderão ver todo seu investimento escorrer pelo ralo. Apenas os 11 maiores clubes do Brasil somam cerca de 1 bilhão de reais em patrocínios master.
Veja o ranking:
- Flamengo (Betano): R$ 268,5 milhões anuais (incluindo metas).
- São Paulo (Superbet): R$ 113 milhões por ano (média anual).
- Corinthians (Esportes da Sorte): R$ 103 milhões por ano.
- Palmeiras (Sportingbet): R$ 100 milhões anuais.
- Vasco (Betfair): R$ 70 milhões por ano.
- Atlético-MG (H2bet): R$ 60 milhões anuais.
- Botafogo (VBet): R$ 55 milhões por ano.
- Santos (7K): R$ 52,5 milhões anuais.
- Fluminense (Superbet): R$ 52 milhões por ano.
- Grêmio (Alfa.bet): R$ 50 milhões anuais.
- Internacional (Alfa.bet): R$ 50 milhões anuais.
Estamos falando apenas em patrocínio master, sem contar os investimentos multibilionários em publicidade, desenvolvimento de sites e aplicativos, hospedagem, pessoas envolvidas em todas as etapas deste processo.
Milhares de pessoas estão perdendo fonte de renda legítima, de trabalho, com mais esta medida irresponsável do infame atual governante.
O desespero da mídia prova os fatos
Segundo a Folha de São Paulo:
Por experiência, a afirmação de que os “serviços de mídia devem ficar proporcionalmente mais caros” é uma falácia descarada de uma estupidez inominável. Um dos princípios mais valiosos do marketing é a “lei da oferta e da procura”.
A demanda de publicidade estava sufocada pelas casas de apostas, o que retirou do mercado bilhões em investimento e consequentemente, de vendas e lucros de dezenas de setores primários da economia. Tal afirmação, portanto, não faz o menor sentido.
Empresas que antes estavam tendo custos exorbitantes por ter de competir em tempo e espaço nos veículos de mídia, e que era exatamente isso que estava encarecendo o custo de veiculação, agora terão de volta muito mais tempo disponível das emissoras e estas, evidentemente, precisam comercializar estes espaços publicitários o mais rápido possível.
Com o aumento expressivo da oferta de tempo de veiculação, a demanda reprimida no mercado poderá ser atendida.
Pelo menos nos canais de streaming e emissoras que pude observar desde o início deste ano, de cada 10 propagandas, pelo menos 5 ou 6 eram de casas de apostas. É absurdo. Porém, a responsabilidade neste aspecto, a meu ver, é 100% do governo que não pensou na regulamentação de forma inteligente, que não impactasse negativamente o restante do mercado.
A conta da burrice chegou.
Leia também: Impacto das apostas e publicidade das bets no Brasil
A ludopatia não começou com as bets
O jogo patológico ou ludopatia não teve início com a entrada das casas de apostas no país, mas foi potencializado exponencialmente por elas.
A história nos prova que milhões de pessoas já perderam grandes patrimônios pelo vício em jogos de azar. Jogos de cartas, cassinos, corridas de cavalo e mais recentemente, as apostas esportivas, que também sempre existiram mundo afora.
Precisamos compreender que o mercado clandestino sempre existiu e com esta medida estapafúrdia e desinteligente de uma pessoa totalmente desprovida de intelecto, sem nenhum estudo de impacto feito antes pelo primeiro asno que assinou a primeira lei de regulamentação em 2018, muito menos pelo atual que sancionou as alterações em 2023, todos da mesma coalisão política, haverá intensificação da clandestinidade.
A solução mágica que o “intelijegue” aplica em sua lei? Criminalizar a atividade e supostamente aplicar penas que tensionarão o judiciário e mais uma vez, poderão lotar as cadeias de pessoas que de fato, não estão cometendo nenhum crime hediondo.
Os adictos, que escolheram num primeiro momento iniciar sua jornada nas jogatinas, ao invés de sentirem no bolso o ônus de sua escolha sendo obrigados a arcar com os custos de seu tratamento, serão beneficiados às custas da população que não é viciada e não tem ligação com jogos de azar.
Eu, por exemplo, sou um destes. Eu nunca gostei de jogos de azar. Nada contra quem gosta, mas não creio ser justo que os tributos que pagamos sejam direcionados a bancar tratamento de saúde mental aos jogadores patológicos.
Eles conseguiram se endividar para jogar. Se forem forçados a se endividar (se for o caso) para o próprio bem, de suas famílias, não seria uma punição mais justa?
A copa do mundo de futebol FIFA escancarou a cagada
Em julho de 2026, devido aos excessos de influenciadores e principalmente pelo canal oficial de transmissão dos jogos da Copa do Mundo Fifa de Futebol pelo Youtube, a CazéTV, medidas extraordinárias tiveram de ser tomadas para coibir a publicidade exagerada, que violava a legislação e o bom senso.
Foi a partir daí que intensificaram os ataques de canais de mídia com ideologia ditas como “progressistas” — em fato e verdade, de viés comunista — aliadas do governo (situação).
Após o fim da copa do mundo e de analisar o cenário micro, macro e histórico, lancei o artigo “Impacto das apostas e publicidade das bets no Brasil”.
Nele, foram analisados todos os aspectos históricos e a escalada da tomada de espaço da publicidade de outros setores, que sim, geraram impactos negativos na economia do país em setores primários do varejo local ao e-commerce, agro, indústrias e outros.
Nem por isso, eu concorde com “proibição”. Não creio que seja um caminho inteligente.
Veja bem, tenho insistido em usar a palavra “inteligente”, porque definitivamente é o que falta não só aos governos brasileiros em todas as esferas do executivo ao legislativo e judiciário, mas indiscutivelmente à população, que foi assolada desde 1996 com o total desmantelamento do aparato educacional que poderia resultar numa nação com indivíduos intelectualmente mais aptos.
Não acredito que a medida prosperará, até porque há obrigações contratuais envolvidas em milhares de empresas, além do setor ter se tornado importante contribuidor de tributos.
Neste aspecto, a culpa por acelerar o processo de decapitação foi a ganância tanto das casas de apostas quanto dos veículos de mídias. Foram com muita sede ao pote, sem analisar as variáveis possíveis, como o veto à sua continuidade.
Mais uma vez, voltamos à “inteligência”. Né!?
Não restou publicidade para as outras empresas?
A verdade? O que ficou foi uma pequena fatia para todos os outros setores se digladiassem e foi isso que encareceu absurdamente o custo de publicidade para eles.
Devido a falta de tempo de exposição, ocupado sumariamente pelas bets com ostensivos lances super agressivos para terem a preferência de exposição, sobrepondo-se a quaisquer outros possíveis, com exceção dos anúncios de pesquisa, que contam com seus termos específicos de intenção do usuário, os demais foram impactados — negativamente, diga-se.
Sites de setores que nem deveriam possuir relação com apostas ou cassinos online, estavam sendo tomados por anúncios ininterruptamente. Pessoas que nunca tiveram ou terão interesse em jogos de azar, sendo massacradas diariamente com suas telas invadidas pela publicidade das bets.
Todo excesso ou extremismo, sabemos que é burro — e olha o contrário de inteligência aí de novo. Será possível que não teve um CMO dessas empresas com inteligência suficiente para prever este cenário?
Será mesmo que não teve ninguém, em nenhuma equipe de marketing das mais de 80 bets legalizadas no país, com uma gotícula de inteligência suficiente para alertar para a possibilidade de o governo tomar medidas populistas drásticas?
Porque, me desculpem meus colegas de profissão, se este é o caso, parem o mundo que eu quero descer. Podemos decretar não o fim das bets, mas sim marcar o cortejo fúnebre para o enterro precoce do marketing, da comunicação e da publicidade e propaganda.
Com tantos índices gritando na cara de todos que era preciso equacionar a realidade do mercado como um todo, priorizando os setores de necessidades primárias da economia, preferiram ignorar os fatos, tocar o foda-se e entrar na onda de “só interessa a grana que está entrando no meu bolso agora”.
Bem, espero que tenha servido de lição.
Temos levantamentos de impacto social sobre saúde mental, violência doméstica, endividamento, patrocínios de clubes, publicidade do setor de apostas de cota fixa. Porém, algo preocupante que não foi levantado com precisão é “quanto as bets gastaram especificamente com influenciadores digitais?”.
Este foi o mercado que deu início ao avanço da propagação massiva desde o seu início. Você tem ideia de quantos canais no Youtube, Twitch, Kwai, TikTok, Instagram, foram patrocinados por elas e quanto faturavam com novos cadastros só da publicidade com influenciadores?
Empresas de educação, varejo, indústrias, aplicativos, por exemplo, não têm condições financeiras de competir com os valores, menos ainda com os “benefícios” das casas de apostas.
Por quê? Óbvio demais. Vou te contar como funciona.
Suponhamos que você tenha uma marca de roupas fitness e esportivas femininas e masculinas e quer fazer publicidade com um canal de esportes. Se não for um canal de nicho específico, lamento, péémmm, porta na cara.
Os valores são inflacionados e incompatíveis com a realidade dessas empresas. Logo, canais de visibilidade ou expansão de marca tornaram-se inviáveis para elas.
O influenciador ganha patrocínio da casa de apostas e um cupom de cadastro. Quanto mais de seus seguidores entraram na plataforma com o cupom dele, mais comissões ele ganha. Você acha que ele vai preferir reduzir os valores em seu kit de mídias e veicular publicidade da “Maria Modas”, do “CRM X”, da “Cosméticos Y” e “Supermercados W”, enquanto pode superfaturar seu ativo publicitário e ter uma casa de apostas que além do vultuoso patrocínio, ganha polpudas comissões?
Você não pode ser tão inocente em acreditar que isso seria possível.
O escândalo jurídico gerado pelo governo
Imagine uma empresa que requer algum tipo de concessão do governo, como setor de energia elétrica, telecomunicações. A oferta pública de concessões é aberta, e você deve pagar 30 milhões por ela.
Você paga, recebe seu registro legítimo, cumpre com todas as obrigações estabelecidas pelo governo e passa a atuar no mercado. Emprega milhares de pessoas, direta e indiretamente.
Estabelece acordos comerciais de 2, 3, 5 anos com outras empresas, com projeções de investimentos bilionários e, de uma semana para outra, o governo diz: “a concessão que você pagou 30 milhões, os investimentos milionários em infraestrutura que você fez, os aportes bilionários em contratos, incluindo os bilhões pagos em impostos, eu resolvi que vou jogar tudo no lixo como se fosse papel higiênico sujo, porque minha palavra e a LEI que eu emiti não valem mais nada”.
Senhoras e senhores, o precedente jurídico que este ato governamental anuncia é gravíssimo. Ele diz em alto e bom som “não confie no governo brasileiro, porque ele não é confiável”, “não invista no Brasil, porque o governo brasileiro é irresponsável, infestado e infectado por imbecis desonestos e incapazes”.
E se amanhã ou depois resolvem fazer isso com setores de tecnologia, indústrias do setor de transformação? A percepção nítida que dá é que a intenção deste (des)governo é, custe o que custar, arruinar de todas as formas possíveis e inimagináveis, até a miserabilidade a economia do Brasil.
A pérola do Dino!
Como toda lei ou MP, ela tem “efeito de lei” a partir da publicação, mas deve passar por aprovação no Congresso Nacional.
Apesar de todos os conchavos políticos e bastidores sórdidos da desonesta e corrupta política nacional, este ainda pode não ser o fim da bets.
Não vou me ater aqui às questões jurídicas específicas, mas recomendo que você leia o Art. 62 da Constituição Federal e a Emenda Constitucional nº 32, de 11 de setembro de 2001. A MP agora transitará ao pode legislativo, que deverá deliberar e votar por sua aprovação ou rejeição.
Como o tema envolve um calor midiático de clara intenção de angariar votos para a eleição em poucos dias, é bem provável que não perdure. Até porque já é visível e notório o efeito contrário da medida.
Sabe aquelas decisões “equivocadas” tomadas por pessoas fora de seu juízo perfeito, bêbadas e naturalmente irrazoáveis? Bom, essa MP pode ser comparada a este tipo de situação.
Como eu já disse antes, sou a favor que se liberar tudo que for de livre escolha do indivíduo, mas que se regulamente, taxe e fiscalize com rigor e eficácia as empresas oriundas de tal liberação — sejam jogos de azar e casas de apostas, drogas, armas. Igualmente, puna-se com o máximo rigor os infratores e que os indivíduos sejam totalmente e irrevogavelmente responsáveis pelas consequências, desde criminalmente aos ônus gerados, como os custos de tratamento pelo vício.
Ninguém põe uma arma na cabeça do cidadão e o obriga a usar drogas nem a apostar. Logo, se ele se viciar, já que deu conta de se endividar por algo inútil e estúpido, que faça o mesmo para arcar com seu tratamento. Só não é justo, na minha opinião, que quem escolheu não se envolver em jogatinas pague pelo erro, tendo dinheiro público que deveria ir para educação, segurança e saúde de todos, destinado a quem escolheu se foder pelas próprias pernas ou, bolso.
Das minhas regrinhas de vida, esta é uma das que mais gosto:
“Quem sou eu pra tirar o seu direito de se foder. Se você quer, você pode!”
Abraço do Dino! 🦖
Gostou desse conteúdo? Tem uma opinião diferente, complementar, outro ponto de vista? Deixa aí nos comentários!
