Minhas opiniões muitas vezes vão na contramão do que a maioria engole sem questionar como “o certo”. A pergunta que eu mais faço é “por quê?”.
Por que tem de ser assim e não de outra forma? Quem decidiu isso? E se existem outras formas de fazer, por que usar somente uma? Testou ou não? Por quê?
Por que as mídias sociais são uma “necessidade irrefutável”? Essa necessidade é real ou fictícia? A quem interessa que as pessoas estejam presas nelas, viciadas nas telas? Por quê?
Por que temos de usar IA para tudo e acelerar desenfreadamente a implementação delas em tudo que é empresa (mesmo as que não precisam de imediato), se elas têm apresentado tantas falhas de inferência, alucinações, erros grotescos? Qual o propósito? Por quê?
Por que as pessoas devem acreditar que todos fazerem conteúdo idêntico, falando dos mesmos assuntos, escritos por IA, sem personalidade nenhuma, sem experiência humana envolvida, é melhor do que ter conteúdo verdadeiramente original? O conteúdo da IA é original? Desde quando? Por quê?
Se o conteúdo das IAs é “original”, porque as próprias plataformas têm penalizado sites e aplicados em resultados de buscas que fazem conteúdo em massa ou exclusivamente gerado por IA? Por que penalizar então? — pelo menos é o que afirmam Google e Microsoft (Bing) em suas centrais de desenvolvedores para mecanismos de busca.
Se você chegou até aqui, é porque provavelmente está de alguma forma questionando. Meus argumentos não são unanimidade, nem quero ditar qualquer “verdade”. Se você concorda ou discorda, vamos debater. Os comentários são o lugar pra você trazer os seus argumentos.
Questionar com argumentos, não apenas pra ser do contra
Eu poderia listas centenas, talvez milhares de perguntas dos “por quês”, ou seja, dos questionamentos das razões pelas quais as coisas estão sendo feitas de uma forma ou de outra. O que eu observo é a maioria simplesmente fazendo porque alguém disse que é assim, sem questionar absolutamente nada. E é isso que me assusta.
Quando você faz uma busca no Google, por exemplo, simplesmente pega a primeira resposta e a toma como verdade? Por quê? Por que é mais rápido, mais confortável, menos trabalhoso?
Qual a garantia que você tem de que aquela resposta realmente é a única correta? Por que não compara outros pontos de vista e procura fazer de uma forma totalmente adaptada a você — ou à sua empresa?
Percebe o quanto é complexo e perigoso tomar como verdade algo que você não questionou e não formulou um pensamento próprio?
Experiências, vivências, leitura, escrita
Pesquiso muito e escrevo diariamente há décadas e o que percebi é que essas buscas com IA deixaram o trabalho mais rápido, porém não com melhor qualidade e acurácia. E posso te provar com um raciocínio de pouquíssimo esforço.
Suponhamos uma busca específica de fontes para escrita de um artigo sobre a NR-1. Digamos que a consulta seja baseada em 3 parâmetros procurando: nr1 aspectos legais para indústria de alimentos, nr1 como implementar para pequena indústria, nr1 autuação e multa.
Para amostragem comparativa usaremos os resultados da busca de: portais de notícias tradicionais, portais governamentais e regulatórios, repositórios de pesquisas científicas de universidades, manuais em pdf e outros de referências técnicas especializados e confiáveis.
Digamos agora que eu colhi 10 resultados de cada fonte: Google, Bing, Google Acadêmico, The Scientist e mais 5 documentos técnicos validados e confiáveis em pdf.
Vou ler todos e compilar um artigo. Demora? Depende do que você considera demorado em relação à qualidade e veracidade das fontes, precisão, originalidade, estilo de escrita, dentre outros fatores.
Levaria uns 3 a 5 dias, talvez mais, dependendo do nível de exigência do cliente para finalizar. Lembre-se, é um artigo técnico, não uma corrida de quem faz pipoca de microondas mais rápido para um vídeo no TikTok.
Estamos falando de uma norma regulamentadora que impacta a maior parte das 25 milhões de empresas do país e mais ainda os mais de 100 milhões de pessoas que trabalham nelas. Existe responsabilidade técnica e ética envolvidos. Como geralmente isso requer uma curadoria dos pontos principais que o artigo abordará, a pesquisa deve ser direcionada também a estes aspectos.
Imagine que no seu artigo escrito pela ferramenta de inteligência artificial de sua preferência, compilou os dados de 50 fontes de referência bibliográfica, dentre links, artigos científicos e livros. Algumas você pode verificar rapidamente acessando os links.
Para sua surpresa, ao começar a acessar os links, apenas 3 ou 4 de cada 10 realmente direcionam para um artigo ou documento que existe. Você procura pelos livros nas páginas referenciadas na pesquisa da IA e descobre que aquele conteúdo sequer existe ali.
E mais, descobre que as citações usadas com nomes de autores famosos, são uma fraude completa. E aí? E o tempo que você já gastou estabelecendo os critérios da pesquisa, na auditoria dos fatos e fontes, na busca por confirmar os detalhes para descobrir que tudo será jogado no lixo? Tudo bem? Será que é mesmo mais rápido?
Por acaso não seria mais rápido ter buscado as fontes numa pesquisa padrão, identificar quais são confiáveis, ler o conteúdo e baseado na sua experiência, vivências, observações, conhecimento prático e interpretação própria, ter escrito o conteúdo?
As buscas no Google não mudaram tanto assim
O que identifiquei é que, ao fazer uma pesquisa, particularmente, por causa das novas funcionalidades principalmente do Google, eu uso a aba “Web”, que mantém a antiga visualização dos resultados de buscas por links.
Agora o que você talvez não saiba: aqueles resultados não vão desaparecer, porque eles são a base de consulta para as respostas da própria AI Overview. Então, se você quiser ignorar as respostas dela e você mesmo validar sua opinião por seus próprios olhos, acessando e lendo o conteúdo, é ali que você irá.
A partir daí você coleta a base de fontes da sua pesquisa que alimentará a ferramenta de IA escolhida. Obviamente, como você verificou a procedência das informações de cada fonte previamente, não está sujeito aos delírios e alucinações da ferramenta.
Acredite, os resultados neste caso são surpreendentemente melhores.
Para quem já tem algum domínio sobre o uso das IAs, tanto generativa quanto agêntica, ao definir um agente com o estilo de escrita ideal, a base documental a ser usada e a formatação final do documento, o trabalho de semanas, talvez meses, será concluído em poucos dias ou horas.
O conhecimento é seu ou apenas processamento de dados?
É aí que vem o ponto principal da minha opinião “controversa”.
Você leu todas as fontes? Você absorveu aquele conhecimento? Ele está armazenado no seu cérebro, na SUA mente? Porque se não está, é mais uma bela porcaria.
O conhecimento verdadeiro é útil e poderá ser compartilhado quando foi nutrido e alimentado o principal agente transformador, o ser humano. Caso contrário, se ele ficou preso apenas na máquina para escrever um artiguinho bonitinho pra entregar pro clientinho e você continua burrinho burrinho sobre o assunto, bem, algo errado não está certo.
Essa relação de dependência cega não pode ser benéfica. Abrimos mão daquilo que define nossa espécie, daquilo que construiu a base das civilizações, o aprendizado, o CONHECIMENTO. Isso não pode dar bons resultados num futuro breve. No presente rápido (pouco mais de 3 anos) já está dando merda. Quem dirá daqui 5, 10 anos.
É muito comum você me pegar dizendo que eu adoro a tecnologia e construí minha vida profissional com ela. Entretanto, aprendi que ela é uma ferramenta, é meio, não o início e o fim de tudo.
Talvez você não concorde comigo. Talvez você seja da turma que idolatra as IAs e eu sou um herege contra sua seita. Talvez acredite que isso é apenas “teoria da conspiração” blasè. Ou talvez concorde.
Minha intenção não é mudar suas crenças. É apenas refletirmos os caminhos que estamos tomando no uso de fer-ra-men-tas.
Se você não tem um altar na sua casa para o martelo, chave de fenda, escada, para sua furadeira de impacto ou sua air frier, por que diabos está construindo um para as IAs na sua mente?
Você por acaso usaria uma britadeira para fazer as unhas ou um alicate de cutícula?
Ferramentas digitais são apenas ferramentas
Devemos usar a ferramenta certa para a ocasião certa. Correto?
Este é ponto.
Deixar que uma máquina determine suas opiniões sem nem questionar, nunca? Deixar que a máquina diga como você deve apresentar a história da sua empresa, a história que foi você quem viveu e construiu? Passar a mensagem da máquina ao invés da sua para as pessoas que vão comprar os produtos ou serviços que é você quem vende para outras pessoas?
A reflexão central aqui não é sobre as ferramentas de inteligência artificial, é sobre as pessoas, que estão ignorando umas às outras, evitando olhar nos olhos umas das outras, preferindo fragmentar a comunicação com mensagens de 5 palavras em mensageiros ao invés de ouvir aquele gostoso “bom diaa!”, com a sensação de que a voz do outro lado está sorrindo pra você.
Desculpe ser franco, mas mensagem de texto de 5 palavrinhas não tem tom. Mensagem de chatbot é fria, um iceberg. Mensagem de áudio ouvida em 2, 3x? Sério?
Ferramentas são o que são, ferramentas. Ei, eu uso IA tá. Obviamente, como ferramenta. Ela não toma decisões por mim, eu não peço “conselho de vida pra ela”, a roupa que vou usar, o que vou comer. Quem faz isso, na minha visão, precisa de psiquiatra.
Pedir a receita de uma comida que você resolveu fazer no jantar ou almoço de fim de semana é uma coisa. A máquina tomar decisões por você, não, não é normal ou natural. É uma aberração aterrorizante.
Agora traga tudo isso de volta ao universo das buscas. É você quem decide a busca que faz de acordo com a necessidade imediata que tem. Certo? Que critérios você usa para escolher os resultados de busca? Preço, qualidade, marca, pelo valor do frete (ou se é grátis) e tempo de entrega, vai direto numa empresa que já comprou e confia?
Geralmente, quando as pessoas fazem uma busca, a não ser que seja por curiosidade, há algumas etapas no processo da decisão de compra. Cada pessoa busca de uma forma. Contudo, o fim de praticamente toda busca por um produto ou serviço, é a compra.
Depois da busca, vem a compra
Quando você faz uma busca por um produto, acessa a página dele, tem uma dúvida rápida, por exemplo, sobre o frete e no chat do site tem aquelas respostas corriqueiras pré-programadas que solucionam de imediato, ok, super válido.
Porém, pense bem. Um produto ou serviço de alto valor, uma venda consultiva. Você tenta falar no mensageiro instantâneo da empresa e depois de 5, 7, 10 tentativas, está preso no looping do “agente de atendimento” que conversa até bonitinho, “quase um humaninho”, mas você já digitou várias vezes “falar com um humano”, “falar com um agente”, “suporte” e… nada.
Aquela experiência da sua busca inicial que a empresa se esforçou para estar entre as mais recomendadas pela IA, foi pro esgoto.
Pense no contrário. Você encontra a empresa, manda mensagem, passa por duas ou três perguntas básicas de triagem e surge uma pessoa bem preparada, conversando com você e pergunta “posso te ligar”? — no telefone, não no whatsapp ou que seja nele, se você preferir.
Aí vem aquele sonoro: “Bom diaaa Marta. Tudo bem com você? Eu sou o Cássio da Empresa P. Me diga qual a sua dúvida que eu te ajudo rapidinho.”
Você tira sua dúvida 2, 3, no máximo 5 minutos, volta à página do produto, finaliza sua compra, vida que segue. Mais um cliente feliz. Imagine a avaliação que a Marta fará da empresa e do atendimento do Cássio.
Agora vamos para o whatsapp de novo, que para automações de e-commerce e vendas de baixo ticket funcionam muito bem. A questão é atendimento humano para pessoas que querem comprar “agora”. A experiência delas é destruída nesses intermináveis e mal projetados chatbots da Terra do Nunca, projetados e configurados por uma alpaca.
Tenha o whatsapp de atendimento, mas tenha o raio do telefone para ligações, o chat do site para que o cliente não saia da página e mantenha a atenção em concluir a compra, a dm do Instagram, TikTok. E tenha também a opção da IA.
Atendimento omnicanal. Assim, quando ocorrer alguma falha no principal aplicativo de mensagens instantâneas (que acontece com frequência), sua empresa não para oras.
Continue tendo o seu vendedor arrastado batedor de ponto do whatsapp para atender 60, 100 pessoas por dia e vender para 2, 3, 5 no máximo. Mas tenha o que atende ao telefone, e vende para 2 ou 5 por hora. No fim do dia, o caixa da sua empresa agradece.
Não acredita em mim não, por favor. Faz o teste.
Você pode se surpreender com o quanto questionar com argumentos plausíveis pode ser benéfico à sua vida pessoal e profissional ou à saúde e evolução da sua empresa.
Abraço do Dino! 🦖
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